sábado, 8 de abril de 2017

Conversa sobre leitura e escrita

Roberto de Queiroz

A expressão acima faz alusão ao assunto abordado em meu livro mais recente, cujo título é Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem (edição revista e ampliada – editora Multifoco, 2016). Esse livro teve sua 1ª edição em 2013 e continha a penas dois capítulos. Recentemente, resolvi revisá-lo e ampliá-lo. Assim, nessa nova edição, fiz a revisão de alguns conceitos e referências, bem como o acréscimo de quatro novos capítulos. Agora, são seis no total.

O primeiro e o segundo capítulos reúnem questões teóricas, de fontes variadas, sobre os objetivos e funções da leitura, os níveis de conhecimento utilizados mediante o ato de ler e outras questões referentes à textualidade, necessárias para o desenvolvimento dos próximos tópicos. O terceiro e o quarto capítulos discorrem sobre o papel dos elementos de comunicação e das funções da linguagem no processo de recepção e produção de textos. O quinto capítulo aborda o discurso no texto ficcional escrito. O sexto e último capítulo trata de atividades de leitura e escrita realizadas no ensino fundamental e médio.

Prosseguido com essa conversa, compartilho com quem ainda não leu a obra em apreço a opinião de quem já a leu. No dizer de Iolita Campos (ex-professora de Linguística da FAMASUL-PE), “esta nova edição [...] traz para o leitor uma obra de suma importância para os estudiosos e usuários da língua materna enquanto instrumento de comunicação e interação. Com ênfase na leitura e produção de textos, o autor procura contribuir para a formação de leitores e escritores a partir da sala de aula, na relação professor/aluno, valorizando a bagagem cultural que o estudante possui e o constante estudo e reflexão que o educador pratica”.

Araken Guedes Barbosa (professor do Departamento de Letras da UFPE) afirma que “o leitor encontrará nesse trabalho uma gama variada de tópicos que incluem os objetivos e as funções da leitura, o conhecimento prévio do leitor e algumas sugestões pedagógicas que o autor oferece aos que se interessam pelo desenvolvimento dessas habilidades de recepção e produção tão importantes no processo educativo”.

Na opinião de Admmauro Gommes (professor do Departamento de Letras daFAMASUL-PE), no tangente ao ensino de leitura e escrita, a obra “aponta uma falha que distorce os encaminhamentos oriundos dos tantos encontros pedagógicos que acontecem no âmbito das formações continuadas nas redes públicas de ensino: um evidente afastamento entre a teoria e a prática”.

Para Nelly Carvalho (professora da Pós-Graduação em Letras da UFPE), não existe uma fórmula mágica nem única para ensinar a ler e escrever. “Cada professor deve buscar o caminho, de acordo com as características suas e da turma que leciona. É esse caminho que o professor Roberto de Queiroz [...] procura encontrar e construir com seu livro Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem. [...] A sua leitura vale como uma forma de mostrar caminhos já trilhados para quem ainda não encontrou os seus”. 


(Texto publicado na Folha de Pernambuco,12/09/2016, Opinião, p. 7). 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Lição 2 - Abel, exemplo de caráter que agrada a Deus

SUBSÍDIO PARA A ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL.

2º Trimestre/2017 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Gênesis 4.8-16.

TEXTO ÁUREO: “Pela fé, Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e, por ela, depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).

INTRODUÇÃO
No capítulo 3 de Gênesis, o homem estava em perfeita comunhão com Deus, no capítulo 4 a raça humana já não tem comunhão com Deus, antes está completamente morta e tende para o mal. Este capítulo também revela como o pecado se espalhou na primeira família e então na sociedade. Verdadeiramente a depravação bem cedo floresceu e se espalhou. A oferta de Caim foi rejeitada porque ele mesmo não era justo diante de Deus. A Bíblia toda ensina que nada do que nós oferecemos a Deus é aceito se não estivermos corretos diante dEle [Gn 4.5, Hb 11.6; Is 1.10-15]. Caim se achou no direito te tirar a vida do próprio irmão por pura inveja. O pecado do capítulo 3 está tomando uma nova cara. Vemos em Caim inveja, cobiça, ódio, ira… Triste realidade: a violência cresce! Vemos claramente a violência crescendo a cada dia. A crueldade dos homens parece não ter fim. Primeira vítima da violência, Abel (hb Havel; "fôlego", "vapor", "exalação" ou simplesmente "nada". Algo considerado "perecível", um prenúncio de seu destino, morto ainda bem jovem. O escritor de Hebreus o classificou como "justo" (Hb 11.4), enquanto que do réprobo Caim é dito que era um filho “do diabo” (1Jo 3.10), porque “suas obras eram más” (v. 12). Caim era “abominável ao Senhor” (Pv 3.32; 11.20; 16.5), assim como tudo dele: suas “mãos” (6.16-17), seus “lábios mentirosos” (12.22), seus “pensamentos” (15.26), seu “sacrifício” e “caminho” (15.8-9).). Caim e Abel foram pessoas gratas a Deus, isso num tempo em que nenhuma lei prescrevia que devessem algum tipo de oferta, ou seja, ambos deram voluntariamente. Cada um deles ofertou conforme o fruto do seu trabalho. Contudo, Deus atenta somente para Abel, não pela qualidade de sua oferta, mas pela disposição do coração. Deus primeiro se agradou da pessoa de Abel, e então de sua oferta; o que mostra que ele não foi aceito por causa de sua oferta, mas por causa de seu caráter espiritual e digno. Aprendemos que as melhores obras dos crentes são imperfeitas e estão manchadas pelo pecado, e somente são aceitáveis a Deus através de Jesus Cristo, em quem, e em quem unicamente, que é o amado, suas pessoas são aceitas e agradáveis a Deus. Notemos que o autor da Epístola aos Hebreus observa,que pela fé, Abel ofereceu mais excelente sacrifício que Caim (Hb 11.4).

I. A OFERTA DE ABEL

1. Uma oferta agradável a Deus. É bom esclarecer o seguinte: note o seguinte texto:“e a Sete também nasceu um filho; e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do SENHOR.” (Gn 4.26); aparentemente, há uma contradição, não é? Como se explica isso? “E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta.” (Gn 4.3,4); a resposta é simples, de fato, sempre houveram verdadeiros adoradores a Deus, começando pelos nossos pais, Adão e Eva, passando por outros tantos, ocorre que o que houve de especial em Gn 4.26 é que agora a população já estava maior, se fala em adoração pública, distinta das realizadas anteriormente, quando era restrita ao seio do lar, esta é a diferença, uma é reservada, a outra é pública. Nenhum homem pode ser justificado ou salvo por suas obras, e portanto nenhum homem pode ser aceito por Deus por esta causa; Como já dito na introdução, foi o caráter espiritual e digno de Abel que o tornou apto a ofertar. Não há a ideia de barganha com o que é a obrigação do crente, contrariamente ao que é ensinado em alguns púlpitos, Deus não negocia bênçãos. Deus não nos deve nada, se Ele nos dá algo é por sua maravilhosa graça, não pelo nosso merecimento. E a primeira primícias que Ele quer é a nossa vida. Não há oferta ou trabalho que esconda uma vida de pecados ou dedicadas a outras atividades. Da mesma forma que não existe dedicação à Igreja que substitua a permanente entrega das nossas vidas a Deus. O adorador e sua oferta são inseparáveis, pela fé, Abel obteve testemunho de ser justo, pois Deus aprovou suas ofertas; sem fé, nem Caim, nem suas ofertas eram agradáveis a Deus (Hb 11.4,6). A exemplo de Jó, Deus tem prazer em destacar as virtudes, as motivações corretas do coração, as ações que glorificam Seu Nome e refletem Seu caráter. O importante na adoração é a atitude de coração e mente. A verdadeira adoração não é apenas forma e cerimônia, mas realidade espiritual que está em harmonia com a natureza de Deus, em verdade, transparente, sincera e de acordo com os mandamentos bíblicos.

2. Uma oferta profética. Cada um dos irmãos trouxe uma oferta voluntária apropria da a sua vocação (Gn 32.13-21); Abel trouxe das primícias (Dt 26.1-11) e do melhor que o adorador tinha a oferecer: o primeiro e o melhor, pelo que, Caim deixou de trazer os dois. Alguns estudiosos apontam para o fato de que Abel trouxe um sacrifício de sangue, enquanto Caim não o fez.

3. Uma oferta valiosa. O louvor de Abel ainda ecoa o fato de que um verdadeiro adorador deve vir com fé, apresentando o sacrifício exigido por Deus. Deus deu testemunho da justiça de Abel porque o justo vive da fé, ou seja, de toda palavra que sai da boca de Deus. A justificação de Deus é de vida, pois Ele cria o justo, e o declara justo “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Rm 5.18). O problema da rejeição de Caim não estava na voluntariedade e nem na sua oferta. O problema estava em Caim, pois primeiro ele foi rejeitado, para depois a oferta ser rejeitada (Gn 4.5). Ao oferecer voluntariamente seu sacrifício, Abel foi justificado por Deus, foi aceito por Deus, e consequentemente também a sua oferta (Hb 11.4). Abel sabia da existência de Deus por intermédio de seus pais, e ao aproximar-se para ofertar, tinha plena certeza que Deus recompensa aqueles que O buscam. O mesmo fato pode ser observado com Abraão: “Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6), e Paulo atesta “Não obstante, aquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé e imputada como justiça” (Rm 4.5). Finalizando o tópico, da própria terra, o sangue de Abel clamou por vingança (Gn 4.10), mas o sangue de Jesus, usando a mesma figura, ‘fala coisas superiores’, clama pelo perdão dos filhos de Deus! (Hb 9.12-15;10.19-22). Note que é neste sentido que o texto de Hb 12.24 diz que o sangue de Cristo “fala melhor que o de Abel” – o de Abel clama por vingança, o de Cristo por perdão!

II. A INJUSTIÇA CONTRA ABEL

1. Abel era um homem justo. Abel recebeu pouca revelação, mas creu. E Deus o purificou graciosamente por meio da fé e da obediência. E se a Escritura dá o testemunho de uma fé salvadora como essa, qualquer outra fé que não essa, é enganosa, falsa, controversa, manipuladora, escravizante. Pois há um só meio de salvação, como diz Paulo e apenas um Mediador entre Deus e os homens, e o próprio Jesus afirmou ser ele o Caminho, não “um” caminho. Se você tem qualquer outra fé que não essa testemunhada na Escritura, livre-se dela, ou ela se livrará de você. Segundo o relato de Hebreus 11.4, Abel ofereceu ao Senhor um melhor sacrifício do que o de Caim. Como já vimos anteriormente, Deus avalia a qualidade do culto que prestamos; a oferta de Abel foi melhor do que a de seu irmão porque Deus viu o interior (Gn 4.7). Não podemos desassociar nossa vida cotidiana de nosso culto ao Senhor. De nada adianta nossas mãos erguidas na adoração se durante a semana nossa vida está associada com o pecado.

2. Abel, o primeiro mártir. Seu nome significa sopro, vaidade, vapor. E tão rapidamente Abel subiu da terra, foi morto, desapareceu de entre os viventes. Mas o seu testemunho de fé falou a todos os homens que viriam depois dele. Falou que as promessas de Deus reservam coisas excelentes a se esperar e que se tornariam fatos, embora naquele momento ainda não fossem visíveis ao olho. É exatamente isso o que a fé de Abel fala. Ela fala de coisas superiores aos infortúnios desta vida. Mesmo depois de morto sua fé fala coisas superiores à própria morte. Pois a Palavra da fé diz: Se vivemos, para o Senhor vivemos; e se morremos, para o Senhor morremos; assim, quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor (Rm 14.8). Jesus Cristo, o Justo também foi morto por ter obedecido ao Pai. O sangue de Abel clama por vingança e maldição (Gn 4.10,11). Porém o sangue de Jesus fala coisas superiores ao de Abel (Hb 12.24), por que não clama por vingança e maldição, mas por reconciliação, paz, bênção, justificação, liberdade. Era isso que a fé de Abel e sua oferta gritavam quanto aquilo que ele esperava, embora não visse. Outro seria morto em seu lugar – era essa sua convicção, e isso foi imputado a ele como justiça por Deus. Sua fé, afinal, falava da graça prometida.

3. O sangue de Abel. O tema do amor fraterno ocorre muito cedo na Escritura; desde o início, fica claro que Deus coloca uma alta prioridade na maneira como irmãos se relacionam. Nest5a passagem, a questão da responsabilidade de um pelo outro surge pela primeira vez. Caim pergunta: “Sou eu guardador do meu irmão?” O termo usado para guardador (Hb shamar) significa “guardar, proteger, prestar atenção, ou considerar.” Somos nós responsáveis pelos outros? “Sem sombra de dúvida” é a resposta de Deus. Nós não somente somos guardadores do nosso irmão, como também somos responsáveis pelo nosso tratamento e pela nossa maneira de relacionar-se com os nossos irmãos (de sangue e espirituais). Em virtude do pecado de Caim contra o seu irmão, Deus o amaldiçoa em toda a terra, retira a sua habilidade para o cultivo da terra e o sentencia a uma vida como fugitivo e errante. Isto indica claramente que a falta de amor fraterno destina a pessoa à esterilidade e ausência de propósito na vida. Ao longo da Bíblia, o Senhor podia ter perguntado a muita gente pelos seus irmãos. O Senhor, hoje, ainda continua a fazer essa pergunta a cada um de nós: “Onde está o teu irmão?” Só que nós também respondemos: “Não sei. Será que eu sou o guarda do meu irmão? Gn 4.9 retrata um encontro de Caim com Deus, logo após o assassinato de Abel. Ao ler esse texto, destaca-se a expressão “meu irmão”. É como uma cobrança de algo que parece não fazermos mais: Será que temos falhado com algum irmão? Será temos nos preocupado ou até mesmo nos esquecido de alguns deles? Com alguns somos mais chegados e nos importamos mais, já outros nos parecem ser indiferentes. “Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu, para glória de Deus” (Rm 15.7); “Pai... quando eu estava com eles, GUARDAVA-OS no teu nome que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu” (Jo 17.12) - Que diferença! Jesus não só os guardou, mas selou seu compromisso com seus irmãos entregando sua própria vida. Ao passo que o sangue de Abel clama por vingança (Is 26.21; Mt 23.35; Ap 6.10) o de Cristo clama por perdão (Hb 12.24).

III. UM HOMEM QUE AGRADOU A DEUS

1. Abel soube agradar a Deus. Na tentativa de agradar a Deus o homem se lança em jejuns, orações, penitências, abstinências, meditação, caridade, confissões, esmolas, etc., mas somente pela fé, a que uma vez foi dada aos santos, é possível tornar-se agradável a Deus (Jd 1.3). O que podemos oferecer a Deus que seja tão precioso a ponto de ser agradável a Ele? A única coisa que realmente nos pertence nesta vida: nosso coração. Não há nada mais precioso do que o nosso coração, a sede de todos os pensamentos e sentimentos – que controla nossa ser. Através da Bíblia, a única abordagem que agrada a Deus é lhe obedecer no que ele manda. Porém esta questão envolve muito mais do que isso. Deve-se lembrar que ao lidar com a palavra de Deus, estamos lidando com Deus. A coisa que Deus exige é uma reverência para com ele que comove até a obediência, seja esta obediência em relação a uma proibição, ou uma questão de honrar o silêncio de Deus, ou de examinar as Escrituras para ter certeza daquilo que ele quer. Quando Deus repetiu a Isaque as promessas dadas a Abraão, ele disse que cumpriria estas promessas, “Porque Abraão obedeceu à minha palavra e guardou os meus mandados, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gênesis 26.4-5). Quando Saul falhou em cumprir o que Deus lhe havia dito, Samuel disse a ele: “Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1 Samuel 15.22). O coração de um filho amável procura obedecer ao pai. Se amarmos a Deus, vamos querer fazer a sua vontade, independente de como ele expressá-la. Jesus falou daqueles que estavam dispostos a fazer a vontade do Pai (João 7.17). A prova mais verdadeira da devoção a Deus não é simplesmente fazer a sua vontade, mas fazer a sua vontade porque assim desejamos. Note também que o amor por outros cristãos é tanto uma característica da nova natureza dos crentes quanto da vida justa (Jo 13.35). Aquele que ama de verdade não se deixa dominar nem pela inveja nem pelo ódio.

2. Abel, buscou a Deus. A base do capítulo 11 de Hebreus é, do princípio ao fim, um exemplo de que os antigos também viveram por fé. “Porque pela fé os antigos obtiveram bom testemunho. As 20 repetições da expressão “pela fé” no capítulo onze, indicam que a salvação sempre tem sido pela fé. Mesmo Abel, não foi salvo pelo sacrifício que ofereceu a Deus, mas pela sua fé no Senhor. Do mesmo modo Enoque agradou a Deus, e Noé foi herdeiro da justiça (Hb 11.5,7), os quais devemos imitar, como exemplo”. Deus quer ser adorado e louvado em espírito e em verdade. Não é cerimonialismo, tradições ou invenções impostas pelos homens, mas adoração que saia de um coração contrito, quebrantado. O autor aos Hebreus nos pede: "Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome" (Hb 13.15).

3. Caim agradou ao Diabo. Já vimos que o ponto central da questão da rejeição de Caim foi o seu coração mau, por isso, Deus rejeitou a sua oferta. Enquanto Abel não se valia do sacrifício para buscar o favor de Deus, mas sim da fé, Caim, esperava algum mérito pela oferta, pois não dedicava o seu coração a Deus. (Hb 11.4). No texto de Gênesis o único indício que temos sobre o motivo de Deus não aceitar a oferta de Caim está no versículo 7: “Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo”. O problema de Caim era “não fazer o bem”. Muitos interpretes tentam explicar essa recusa e três possibilidades são as mais sugeridas:
a. A primeira sugestão é que Abel ofereceu o melhor que possuía, ao contrário de Caim. Curiosamente essa é a sugestão mais conhecida, porém não existem indicações bíblicas que defendam essa hipótese no texto.
b. A segunda é que Caim trouxe uma oferta onde não houve um “derramamento de sangue”, e, desta forma, se passou por um homem justo e sem necessidade de qualquer sacrifício pelos pecados. Essa hipótese assume que Deus previamente havia instruído sobre o tipo de oferta que deveria ser apresentada para fazer a expiação pelos pecados, logo, Caim desobedeceu a essa instrução. O versículo 3 do mesmo capítulo é utilizado para defender essa interpretação, afirmando que o sacrifício já era habitual para eles.
c. A terceira possibilidade defende que a atitude de Caim estava errada, em seu interior em relação a sua comunhão com Deus. Em Hebreus 11.4 é relatado que “foi pela fé” que Abel ofereceu um sacrifício maior que o de Caim, e, por sua ira invejosa, Deus censurou Caim. A ira de Caim mostra quão decidido ele estava em agir por conta própria, sem se submeter a Deus. A ira é uma emoção destruidora. Nunca poderemos nos desculpar por ter ofendido alguém dizendo: 'Tenho um temperamento agressivo'. Precisamos considerar a ira como pecado e conscientemente nos submeter à vontade de Deus. O poder do pecado dominou o coração de Caim, que se tornou maligno. Sob o doinínio de um profundo ódio contra o seu irmão Abel, sem que o mesmo tivesse feito qualquer coisa que justificasse sua raiva, ele usou de engodo, ao convidá-lo a ir ao campo, para depois atacá-lo e matá-lo ((Gn 4.8). O fato de tê-lo levado, indica que o crime fora premeditado, para escapar dos olhos de seus país e, deste modo, evitar testemunhas contra o seu pecado. Caim procurou fugir da responsabilidade de seu crime, como muita gente faz boje, por não querer as­sumir seus próprios pecados. No texto de Genesis 4. 11 e 12 Deus expressa a sua rejeição e a inevitável maldição, ao dizer-lhe: "E agora maldito és desde a terra, que abriu a sua boca para receber das tuas mãos o sangue de teu irmão". Caim ficou no estado em que estão muitos, hoje. Não tinha coragem nem sentia ânimo para clamar por perdão, mas num espírito pessimista e com os olhos fechados para a misericórdia de Deus só exclamou: "Maior é a minha pena do que eu possa suportar." (v. 13)


CONCLUSÃO

O sacrifício deve ser oferecido com fé, pois, sem fé é impossível agradar a Deus, indiferente do sacrifício. Os dois filhos de Adão trouxeram sacrifício ao Senhor. O Senhor se agradou de um e desagradou-se do outro. E o que levou o Senhor agradar-se de um e do outro não agradar-se está diretamente ligado ao procedimento de fé de cada um dos irmãos. Havia no sacrifício de Abel um ingrediente muito importante chamado fé, ao passo que, Caim, talvez estivesse apenas cumprindo um ritual religioso. O que separa uma vida religiosa de uma vida de intimidade com Deus é o ingrediente “fé” no que fazemos diante de Deus e para Deus. Note que a razão do sacrifício é evidenciar a fé do ofertante: Hebreus 11.4 assevera: “Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala.” A diferença entre Caim e Abel pode ser vista em todas as épocas. Os Publicanos e Fariseus nos dão um retrato disto no Novo Testamento [Lc 18.9-14]. O "caminho de Caim" [Judas 11] é o caminho da salvação através das obras e da religião. Deus alertou a Caim, porém, ele não deu ouvidos. Eva foi induzida a pecar e agora Caim não podia o resistir. “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória. Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém”. (Jd.24-25).

REFERÊNCIAS:

ARRINGTON, French L. et STRONDSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal – Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada – Como interpretar a Bíblia de maneira fácil e eficaz. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
Bíblia de Estudo Matthew Henry. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2016.
Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Hebraico-Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
BOYER, Orlando. PEQUENA ENCICLOPÉDIA BÍBLICA. Estados Unidos da América: Vida, 1998.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico – Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
LIMA, Elinaldo Renovato de. O Caráter do Cristão. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 3ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
_____. Guia do Leitor da Bíblia: Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2008.

Lição 1 - A Formação do Caráter Cristão

SUBSÍDIO PARA A ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL.

2º Trimestre/2017 

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Efésios 4.17-24

TEXTO ÁUREO: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim." (Gl 5.20)

INTRODUÇÃO
Deus está permanentemente em busca de algo. Você já pensou nisso um dia? A busca de Deus é o propósito tramado no estofo do Novo Testamento. O padrão que ele persegue está definido em Romanos 8.29, onde ele promete que nos conformará à imagem de seu Filho. Outra promessa está registrada em Filipenses 1.6, onde lemos que ele iniciou boa obra em nós e não vai interrompê-la. Noutro passo bíblico, ele chega a chamar-nos de "feitura" sua (Efésios 2.10). Ele está nos martelando, limando, esculpindo, dando-nos forma! A segunda carta de Pedro chega ao ponto de relacionar alguns dos objetivos dessa busca encetada por Deus: diligência, fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor (2 Pedro 1.5-7). Numa palavra: caráter. Tiago escreve: "Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por provações, sabendo que a prova da vossa fé desenvolve a perseverança. Ora, a perseverança deve terminar a sua obra para que sejais maduros e completos, não tendo falta de coisa alguma." (Tg 1.2-4). Em Gênesis encontramos o registro de Moisés explicando que o homem, enganado por Satanás, rebelou-se contra o seu Criador, perdendo sua condição perfeita, a ponto de a imagem de Deus, no qual ele tinha sido formado, ter sido destruída. Não somente o homem, mas toda a criação, que foi trazida a existência para o bem do homem, caiu junto com ele perdendo também sua excelência. A Bíblia é farta de ensinamentos referentes à virtude, à moral e ao caráter cristão. Os preceitos da Lei, especialmente os do Decálogo (Êx 20), as mensagens éticas dos profetas (Is 10.1,2; Hc 2), os ensinos de Jesus (Mt 5-7), e as doutrinas exaradas nas epístolas (Rm 12.9-21; 1 Pe 3.8-16), revelam a vontade Deus para a vida moral do homem (2 Tm 3.16).

l - O CARÁTER NA REALIDADE DO HOMEM

1. O que é caráter? Caráter é um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo. É um feitio moral. É a firmeza e coerência de atitudes. O conjunto das qualidades e defeitos de uma pessoa é que vão determinar a sua conduta e a sua moralidade, o seu caráter. Os seus valores e firmeza moral definem a coerência das suas ações, do seu procedimento e comportamento. Caráter, então, é o conjunto das qualidades boas ou más de um individuo; a ética do juiz é a lei e a de Deus é a bíblica, a Bíblia nos ensina a não ser conivente com o erro, mesmo que ele esteja protegido por leis. O caráter determina a conduta do ser humano com relação a Deus e a ele mesmo e também com o próximo. A pessoa não é apenas definida por aquilo que ela é, mas também pelo seu estado moral que a distingue em seu grupo (Pv 11.17;12.2;14.14;20.27).

2. Personalidade e caráter. Personalidade é o conjunto das características marcantes de uma pessoa, é a força ativa que ajuda a determinar o relacionamento das pessoas baseado em seu padrão de individualidade pessoal e social, referente ao pensar, sentir e agir. Uma pessoa conhecida como "sem caráter" ou "mau caráter", geralmente é qualificada como desonesta, pois não apresenta firmeza de princípios ou de moral. Por outro lado, uma pessoa "de caráter" é alguém com formação moral sólida e incontestável. O caráter quando é forte, não se deixa levar por alguma proposta de uma via mais fácil para a realização de algo. Mesmo se naquele momento parece ser o melhor caminho a seguir, é o caráter que vai determinar a escolha do indivíduo. Atingido pelo pecado, o homem teve sua natureza moral corrompida (Rm 1.18-32), necessitando assim da nova vida em Cristo (2 Co 5.17). Ao ser regenerado, o homem recebe da parte de Deus um novo caráter (2 Co 5.17). O Espírito Santo, por meio de suas ministrações (Rm 8.1-17; Gl 5.22-26), aperfeiçoa-o gradualmente (2 Co 3.18; 1 Pe 1.2). Na continuação, o Espírito da Verdade passa a controlá-lo por completo, de modo que suas ações passam a ser moldadas por Ele (Rm 8.5-11). Uma vez que a imagem perdida no Éden fora restaurada, o homem passa a experimentar e demonstrar uma vida de integridade (Gn 3.11-13; Rm 5.12; 1 Co 15.22,45; Ef 4.23,24).

II-A DEFORMAÇÃO DO CARÁTER HUMANO

1. A Queda e o caráter humano. O Conselho Divino e Triúno determinou que o ser humano deveria ter a imagem e semelhança de Deus. O homem é um ser moral cuja inteligência, percepção e autodeterminação excedem em muito os de qualquer outro ser terreno. O pecado tem subtraído do ser humano toda a sua sensibilidade concernente aos princípios e valores morais. Sem que se perceba, sua natureza moral é corrompida (Rm 1.18-32), seu coração é endurecido (Hb 3.7-19) e sua consciência é cauterizada (1 Tm 4.2; Ef 4.18). É nesse ponto que o homem se torna insensível à voz do Espírito, passando a praticar todo tipo de pecado, entristecendo ao Todo-Poderoso (Ef 4.31). Portanto, é dever de todos os crentes observarem os limites estabelecidos pela Palavra de Deus, para que vivam “como astros no mundo” (Fp 2.15). O caráter doentio é caracterizado pela insensibilidade moral, permissividade, mentira, malícia, concupiscência, cobiça e ambição.
2. Imagem e semelhança de Deus. Em termos bem simples, ter a “imagem” e “semelhança” de Deus significa que fomos feitos para nos parecermos com Deus – esta aparência não é física - Adão não se pareceu com Deus no sentido de que Deus tivesse carne e sangue. As Escrituras dizem que “Deus é espírito” (Jo 4.24) e portanto existe sem um corpo. Entretanto, o corpo de Adão espelhou a vida de Deus, ao ponto de ter sido criado em perfeita saúde e não ser sujeito à morte. A imagem de Deus se refere à parte imaterial do homem. Ela separa o homem do mundo animal, e o encaixa na “dominação” que Deus pretendeu (Gn 1.28), e o capacita a ter comunhão com seu Criador. É uma semelhança mental, moral e social (Gn 1.26-28; 5.1-3; 9.6).

3. A deformação do caráter humano. Quando o homem caiu, perdeu ele totalmente a semelhança moral com o Criador? Em seu aspecto estrutural ou ontológico (aquilo que o homem é), não foi eliminado com a queda, o homem continuou homem, mas após a queda, o aspecto funcional (aquilo que o homem faz) da imagem de Deus, seus dons, talentos e habilidades passaram a ser usados para afrontar a Deus. Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram, desobedecendo à ordenança divina (Gn 3.13; 2Co 11.3; Rm 11.32 e 5.20-21). Por este pecado, decaíram da sua retidão original e da sua comunhão com Deus, tornando-se mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma (Gn 3.6-8; Rm 3.23; Ef 2.1-3). Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais (Rm 5.6; 7.18; Cl 1.21; Tg 1.14-15). Mas esta imagem não foi totalmente aniquilada com a Queda, embora tenha se tornado terrivelmente deformada, doentia e desfigurada. O homem antes criado para refletir Deus, agora após a queda, precisa ter esta condição restaurada. Esta renovação da imagem original de Deus no homem significa que o homem é capacitado a voltar-se para Deus, a voltar-se para o próximo e também voltar-se para a criação para governá-la.
As consequências principais do pecado são a morte e a separação da presença de Deus (Rm 6.23). Essas duas consequências causam muito sofrimento na vida do pecador. O pecado também traz muitas outras consequências secundárias.

a) No relacionamento com Deus. O pecado desfigurou o homem, cortando a ligação direta com seu Deus: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). O pecado passou a todos os homens (Rm 5.12; SI 51.5). As repercussões e o alcance desse fato terrível, de natureza espiritual, têm sido sentidos ao longo da história. O pecado distanciou o homem de Deus e o levou a criar seus próprios deuses segundo suas malignas concupiscências, para agradarão príncipe deste mundo. Toda religião que não tem Deus como o Criador, e Jesus Cristo, seu Filho, como Salvador, é instrumento do Diabo para afastar o homem de Deus.

b) No relacionamento humano. Quando Deus perguntou a Adão se ele havia comido do fruto da árvore proibida, este não assumiu a culpa, mas procurou justificar seu erro, acusando a esposa. Quando Deus questionou Eva a respeito dos seus atos, ela transferiu a culpa para a serpente (Gn 3.9-13). O relacionamento de Adão e Eva foi afetado pelo pecado, culpa e medo. Não demorou muito, e ali, no Éden, houve um confronto entre o caráter mau, de Caim, e o caráter justo, de Abel. Caim matou seu irmão, Abel (Gn 4.8). Lameque matou um homem adulto e um jovem (Gn 4-23). A morte e a corrupção se espalharam com o passar dos séculos. O juízo de Deus foi enviado no seu tempo, através do Dilúvio (Gn 6-8).

c) No relacionamento com a natureza.  "E tomou o SENHOR Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar" (Gn 2.15). Além de cuidar do jardim, o homem teria o domínio da Terra, com autoridade delegada pelo Criador sobre todos os animais (Gn 1.28). Mas, usando mal o seu livre--arbítrio, o ser humano fracassou em cuidar de si mesmo e do planeta. E tem poluído o ar, o solo, as águas e todo o ambiente natural. Mas Deus destruirá os que destroem a Terra (Ap 11.18).


lll- A REDENÇÃO DO CARÁTER HUMANO

1. Novo nascimento, transformação do caráter. Num sentido, como já dissemos, o homem ainda é portador da imagem de Deus, mas também num sentido, ele precisa ser renovado nesta imagem. Esta restauração da imagem só é possível através de Cristo, porque Cristo é a imagem perfeita de Deus, e o pecador precisa agora tornar-se mais semelhante a Cristo. Lemos em Cl 1.15 "Ele é a imagem do Deus invisível" e em Rm 8.29 que Deus nos predestinou para sermos "Conforme a imagem de Seu Filho ..." (1Jo 3.2; 2Co 3.18). O ser humano traz em sua natureza uma forte inclinação para o pecado (Rm 7.18-23; Pv 4.14-17). Trata-se de uma tremenda força maligna impossível de ser superada sem a ajuda divina. É justamente por isso que Deus nos enviou seu Espírito para habitar em nós, dando-nos a condição de andarmos em novidade de vida (Rm 6.4; 2 Co 5.17). Somente pelo Espírito Eterno, o crente pode caminhar seguro, resistindo aos desejos da carne (Rm 8.1,9,13; Cl 5.16). Em Gálatas 5, o apóstolo Paulo enumera várias obras da carne que contaminam o caráter do homem sem Cristo (Gl 5.19-21). Todavia, nesse mesmo capítulo, encontramos um conjunto de valores espirituais que garante a saúde moral do crente (v.22).

2. A Palavra de Deus muda o caráter. Quando o ser humano recebe Jesus Cristo como Senhor e Salvador de sua vida, e mantém uma comunhão intensa com Ele, o Espírito Santo gera nessa pessoa virtudes que refletem o caráter de Deus, que o apóstolo Paulo chama de Fruto do Espírito. O Fruto é gerado na medida em que o Espírito Santo vai transmitindo, ou gravando, no caráter do homem virtudes existentes em Deus, das quais Paulo relacionou nove em Gálatas 5.22. Elas são a maravilhosa descrição do Caráter de Cristo que devemos adquirir dia a dia pelo estudo da Palavra de Deus e comunhão devocional com o Senhor. Somente quando tais virtudes tornam-se perceptíveis em nossas vidas podemos entender o que é ser um cristão cheio do Espírito Santo. Se dermos lugar ao Espírito Santo e santificarmos nossas vidas, as pessoas verão que Deus está em nossas vidas, pois pelos frutos somos conhecidos. Aliás, um dos propósitos do Fruto do Espirito é nos identificar. Assim como uma árvore é conhecida pelos seus frutos, o crente verdadeiro é reconhecido por suas ações. O Fruto também revela a nossa comunhão e o quanto temos aprendido do Senhor. Este amor é a base e o fundamento onde todos os outros atributos são edificados. O apóstolo Paulo diz que em primeiro lugar quando estamos unidos a Cristo, o amor atua ou age através da nossa fé(Gl 5.6). Em segundo lugar, pelo amor que está em nós, podemos servir uns aos outros sem impor nada a ninguém (Gl 5.13). E em terceiro lugar, toda lei se resume em amar o próximo como a nós mesmos (Gl 5.14). Note que ninguém pode dizer que tem um aspecto do fruto e outro não; isso porque é o amor o lastro onde as demais virtudes se desenvolvem. A Bíblia Sagrada é a única regra de fé e prática do cristão. Ela nos apresenta o padrão de comportamento necessário ao homem que deseja viver uma vida justa, sóbria e piedosa neste mundo (Tt 2.12). Ao longo da narrativa bíblica deparamo-nos com uma série de valores e virtudes morais e espirituais estabelecidas por Deus para o homem. Todavia, estas qualidades indispensáveis ao ser humano, só foram plenamente identificadas e vividas em Jesus. Hoje sabemos que essas santas virtudes estão ao alcance de todos, por meio da extraordinária obra do Espírito. É imprescindível ao homem conhecer muito bem as Escrituras e o poder de Deus para que não erre na busca de uma vida virtuosa diante de Deus e do próximo (Mt 22.29).

3. O caráter amoroso e santo do crente. Deus está associado com o amor, o amor é a essência de Deus. O amor sincero e veradeiro é algo que representa o nosso Deus. Ele é a nossa fonte de amor. É Deus quem nos ensina a dar e receber amor. O amor é a maior das virtudes do fruto do Espírito. Vem do grego ÁGAPE e significa muito mais do que sentimentos e emoções; é o amor altruísta baseado na ação em favor de outrem. Em João 3:16 temos o versículo crucial que denota a grandeza deste amor. Essa virtude maior do Espírito, deve estar acima de quaisquer circunstância na vida do crente. “...para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis” (Fp 2.15a) "Vida irrepreensível" significa viver de modo a não dar motivo de repreensão, ou seja: uma vida totalmente isenta de culpa. Paulo escreveu em uma época onde havia a escravidão humana. Em Creta, assim como em todo o império romano, havia muitos escravos. Na igreja existia senhores e escravos que se converteram a Cristo, por isso, Paulo mostra como devia ser o relacionamento, a conduta dos servos e dos senhores. O apóstolo mostra que os servos deveriam agradar seus senhores “em tudo”, pois um senhor crente não daria ordens que fossem incompatíveis com a fé cristã e com a Palavra de Deus. Os escravos que tinham senhores crentes deveriam manter uma atitude de submissão. Em Efésios 4.1-16, Paulo tratou da unidade da igreja. Nesse parágrafo, ele trata da pureza da igreja. Paulo faz o mesmo tipo de introdução nos versículos 1 e 17. A pureza é uma característica do povo de DEUS tão indispensável quanto a unidade.


CONCLUSÃO
Quando uma pessoa aceita a Cristo como Salvador de sua alma, experimenta, imediatamente, uma profunda modificação em seu interior. Essa mudança é demonstrada não apenas nos relacionamentos, mas também nas escolhas, atitudes e responsabilidades assumidas durante a sua nova vida (Cl 3.1-17). O caráter cristão é preservado mediante a comunhão do crente com o Espírito Santo, pelo conhecimento da Palavra e através de uma vida cristã disciplinada. “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória. Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém”. (Jd.24-25).

REFERÊNCIAS:

ARRINGTON, French L. et STRONDSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal – Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fácil e Descomplicada – Como interpretar a Bíblia de maneira fácil e eficaz. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
Bíblia de Estudo Matthew Henry. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2016.
Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Hebraico-Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
BOYER, Orlando. PEQUENA ENCICLOPÉDIA BÍBLICA. Estados Unidos da América: Vida, 1998.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico – Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
LIMA, Elinaldo Renovato de. O Caráter do Cristão. 1ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2017.
RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. 3ª Edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2008.
_____. Guia do Leitor da Bíblia: Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
ZUCK, Roy B. Teologia do Novo Testamento. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2008.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Quanto valem 365 dias de vida?


Na Holanda se discute quanto a sociedade deveria pagar pelo tratamento médico de um único paciente. Para felicidade nossa, Deus calcula de maneira bem diferente.
Conforme o boletim TOPIC, na Holanda se discute quanto a sociedade estaria disposta a gastar para prolongar uma vida humana por mais um ano. Essa questão surgiu com a polêmica acerca do destino de uma jovem mãe com câncer. Ela precisava de um medicamento extremamente caro, que não garantia sua cura. A questão em debate era se deveria ser estipulado um limite máximo para as despesas médicas que a sociedade estaria disposta a pagar para prolongar uma vida por mais 365 dias. Estabelecer um custo máximo também aliviaria a responsabilidade dos médicos, que precisam tomar sérias decisões quanto aos tratamentos de seus pacientes. Essa polêmica poderia prosseguir, como aconteceu com a eutanásia. Pelo que se percebe, começam a tomar forma as tentativas de transformar a duração da vida humana em uma mercadoria, ou seja, de estipular seu valor em dinheiro para equipará-la a um bem que pode ter preço estipulado e seja vendável. A respeito, cito a interessante declaração de Neil Postmann, conhecido crítico dos excessos da tecnologia:
É inquestionável que cada vez menos pessoas sentem-se comprometidas com os valores e as reivindicações de autoridade da Bíblia ou de outras tradições religiosas. Por isso, suas decisões deixaram de ser éticas para serem somente práticas, decisões que, em seu âmago, levam em consideração os ditames do mercado.
Deus calcula de forma bem diferente!
Em três parábolas, o Senhor nos mostra o grande valor de cada vida humana:

1. A parábola da ovelha perdida

“Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles. Então, lhes propôs Jesus esta parábola: Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la? Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo. E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.1-7).
Uma única ovelha de um rebanho de cem animais equivale a 1%! Jesus, o Bom Pastor, não se importa de andar muito procurando uma de Suas ovelhas que se perdeu. Ele faz tudo para salvar essa ovelha em particular. Para Ele, a ovelha perdida não é apenas mais um número ou uma porcentagem; é uma vida preciosa que Ele quer levar para o reino dos céus. Ele, que sustenta e mantém todo o Universo, em cujos ombros repousa todo o poder (Is 9.6) não se acha grande demais para ir atrás de uma de Suas ovelhas perdidas, de colocá-la em Seus ombros e de levá-la para casa.

2. A parábola da dracma perdida

“Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? E, tendo-a achado, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido. Eu vos afirmo que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.8-10).
Lembro bem do que sempre nos ensinavam quando eu era criança: “Quem não cuida do tostão não merece o milhão”! Na parábola da dracma perdida vemos que o valor do bem perdido equivalia a 10% do total. Jesus veio como luz para o mundo, para buscar o que se havia perdido. Nem um homem sequer lhe é indiferente. Cada um tem valor infinito em relação à vida eterna.

3. A parábola do filho pródigo

“Continuou: Certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se” (Lc 15.11-24).
Essa parábola fala de 50%. Será que o Todo-Poderoso, que tem tudo à Sua disposição, não poderia prescindir de uma só pessoa? Não! Ele não abre mão de ninguém! Cada um é importante! Ele se interessa particularmente por cada ser humano. Ele quer estar perto de cada um, cuidar de cada um e estender Seus braços a cada um, por mais perdido que esteja.
Deus está disponível para todos. Afinal, Ele entregou Seu Filho 100%, integralmente, pelo mundo inteiro. Cem por cento por cem por cento! Tudo por todos! “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Vemos que o Senhor sempre dá tudo de si, começando com um por cento até atingir todas as pessoas. E nós? Fazemos contas, calculamos e avaliamos se vale a pena deixar alguém viver mais um ano...


Norbert Lieth — Chamada.com.br

O Vaso e Seu Oleiro


Saulo, mais tarde conhecido como Paulo, encontrava-se orando quando foi chamado pelo Deus eterno (At 9.11). O Senhor viu esse homem em oração, um homem piedoso e temente a Deus, um descendente de Abraão que certamente já orara muitas vezes durante sua vida (veja Fp 3.5-6). A oração era uma das características dos fariseus; alguns deles, porém, oravam apenas para serem vistos pelos homens (Mt 6.5). Paulo também era fariseu. Mas agora, pela primeira vez na vida, ele dirigia suas orações a Jesus Cristo. Deus reagiu imediatamente aos pedidos feitos em Nome de Jesus, ajudando Paulo na situação de aflição em que se encontrava e chamando-o para o ministério. A característica infalível que identificava e continua identificando alguém como cristão é orar em nome de Jesus (At 9.22). Essa constatação torna supérfluas todas as discussões acerca da divindade de Jesus: Seus primeiros seguidores eram reconhecidos por orarem a Jesus Cristo! O judeu chamado Jesus Cristo é Deus. Orar a Jesus é orar a Deus. E no momento em que Saulo voltou-se sinceramente para Jesus, clamando e chamando-o de Senhor, teve início em sua vida um processo que poderíamos ilustrar com o que acontece com o barro na roda do oleiro. O próprio Senhor chamou Paulo de “vaso escolhido” (At 9.15). Com sua oração a Jesus, Paulo abriu seu coração para a ação divina em sua vida pessoal, recebendo em troca um ministério a ser exercido para seu Senhor. Tornou-se um “instrumento escolhido”, como dizem outras traduções. E o Senhor começou a trabalhar em Paulo como trabalha em cada um de nós quando nos abrimos para Ele. Como Saulo, nós também somos vasos escolhidos por nosso Senhor Jesus Cristo (veja Tt 1.1; 2Co 4.7).

Sete características do vaso

Um vaso de barro tem sete elementos que o caracterizam:
o material de que é feito;
uma abertura para enchê-lo;
o conteúdo para o qual foi fabricado;
uma alça ou cabo para segurá-lo;
seu fundo, sua superfície de contato;
eventuais enfeites em seu exterior;
a etiqueta ou selo do oleiro.

1. O material do vaso

O vaso é feito de barro, que deve ser mole e maleável. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.7). Essa é uma declaração importante: o tesouro está em vasos de barro. Os recipientes são frágeis. Precisamos ter isso em mente. Vasos de barro, de argila, de terra, somos nós, homens feitos do pó da terra. E vasos de barro significam conflitos, lutas, fraquezas e limitações humanas. Percebemos muito nitidamente essa realidade quando precisamos trabalhar em equipe ou quando nos reunimos em igrejas locais. A convivência expõe toda a nossa fragilidade. Não existem cristãos super-homens ou super-mulheres. Não existe uma experiência com o Espírito Santo que nos transforme em super-cristãos de um momento para o outro (basta ler o sóbrio conselho de Colossenses 3.13). As múltiplas exortações e as repetidas admoestações nas cartas do Novo Testamento nos mostram que, enquanto vivermos nesta terra, estaremos na roda do oleiro divino sendo moldados e transformados por Ele (2Co 3.18). Um oleiro trabalha peça por peça. Faz cada vaso individualmente. Um diferente do outro. Um vaso não é tijolo fabricado em série. Tijolos são prensados na mesma forma, todos com a mesma aparência. É o que todas as seitas almejam e o que os ditadores mais querem: fazer todos iguais, sem individualidade e sem personalidade. Mas nós somos bem diferentes, temos dons diferentes e capacidades distintas. Somos todos peças originais criadas por nosso Oleiro divino. Nosso Deus é muito criativo!

2. A abertura do vaso

Quando Saulo começou a orar, estava sinalizando sua receptividade e sua fome espiritual, como um filhote de passarinho abrindo o bico e pedindo comida.
Quando Saulo começou a orar, estava sinalizando sua receptividade e sua fome espiritual, como um filhote de passarinho abrindo o bico e pedindo comida. O Salmo 81.10 nos lembra dessa imagem: “Abre bem a boca, e a encherei”. O homem é como um recipiente a ser preenchido. Paulo enfatizou aos coríntios de coração estreito: “Para vós outros, ó coríntios, abrem-se os nossos lábios, e alarga-se o nosso coração. Não tendes limites em nós; mas estais limitados em vossos próprios afetos” (2Co 6.11-12). Paulo tornou-se um homem que tinha um imenso coração para com os outros, um cristão de coração alargado e dilatado em seu afeto por seus irmãos e irmãs em Cristo. Na medida em que nos abrimos para Deus, tornamo-nos bênção para outros. Jesus disse: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38). Como vasos de Deus devemos estar abertos para receber e abertos para dar.

3. O conteúdo

A responsabilidade é nossa: permitir ou impedir que o Senhor nos encha. Deus não força ninguém. Em relação ao vaso, o que importa é seu conteúdo. O que está em seu interior é sua única razão de ser. E a exortação de Colossenses 3.16 mostra que o processo não é automático, pois a Escritura ordena: “Habite, ricamente, em vós, a palavra de Cristo”. Nós somos responsáveis por aquilo que habita em nós e pelo que nos preenche (veja Ef 5.18).

4. A alça

Tomar chá em uma delicada xícara de porcelana chinesa é uma legítima acrobacia. A alcinha minúscula da xícara torna quase impossível segurá-la, e apesar de nosso esforço, ela balança entre nossos dedos. Por isso, as canecas grandes são as preferidas para o café de cada dia. Xícaras generosas, com uma boa alça. A facilidade em usar um recipiente torna-o mais usado ou menos usado por seu proprietário. Esse é um pré-requisito importante para que a vasilha seja usada conforme o planejado. Eis uma ilustração que podemos aplicar a nós.
Na vida de Paulo podemos acompanhar sua transformação radical. De furioso e fanático perseguidor de crentes tornou-se um homem bondoso e amável. Essa mudança foi tão profunda e completa que ele nem se envergonhava de usar a imagem de uma mãe amamentando seu filho para ilustrar todo o seu carinho e seu imenso amor pela igreja de Tessalônica (1Ts 2.7-8). Em Gálatas 4.19 ele menciona as dores e os sofrimentos de um parto para falar do sofrimento que acompanha o renascer espiritual de alguém a quem pregamos o Evangelho. A sua despedida de Éfeso evidencia o que ele havia semeado através de seu empenho altruísta e de seu trabalho intensivo entre os membros dessa igreja: amor e carinho mútuos: “Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até o navio” (At 20.37-38, veja também o versículo 31). Expressões como grande pranto e o beijavam sublinham a grata afeição que esses cristãos tinham por Paulo e o quanto valorizavam seu trabalho. Eles o amavam de todo o seu coração. Os efésios haviam encontrado o caminho a Deus através dos ensinos do mensageiro Paulo, que cuidou deles por alguns anos. Juntos eles superaram crises, foram edificados espiritualmente e amadureceram na sua fé em Cristo. Paulo frisou que trabalhou pessoalmente com cada um deles. Isso não aconteceu na corrida ou de forma anônima na multidão de uma mega-igreja. E Paulo não se empenhou pelos mais simpáticos ou mais fáceis de lidar. Todos foram aceitos na igreja como preciosos filhos de Deus, cuidados e pastoreados com carinho e dedicação. Tudo isso fazia de Paulo um homem vulnerável às frustrações e à dor que os relacionamentos humanos costumam trazer consigo. Ele permitia ser tocado pelos outros. Ele permitia ser usado pelo seu Oleiro.
Hoje em dia temos todos a forte tendência de formar grupinhos. Sentimo-nos confortáveis com aqueles que são como nós, que nos agradam e concordam conosco. Para alguns oferecemos a “alça” onde podem nos tocar. Para outros somos legítimos espinheiros, como vemos no exemplo de Diótrefes (3Jo 10). Fica a pergunta: somos fáceis de lidar ou pessoas difíceis? Somos complicados ou abertos aos irmãos? Nossa influência é positiva ou negativa? Somos vasos de bênçãos ou cactus espinhentos?
Lemos acerca de Moisés: “Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12.3). Como Moisés conseguia ser tão manso sem a ajuda da Psicologia ou da Psicoterapia? Em Hebreus 11.24-26 descobrimos Moisés na galeria dos heróis da fé: “Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão”. Moisés tinha de tomar decisões. Uma delas era escolher entre confiar em si mesmo ou confiar exclusivamente em Deus. Ele optou por ser usado por Deus. E foi transformado por Ele! Outra decisão sua foi escolher seguir a Deus ao invés de se agarrar aos tesouros e à sabedoria do Egito. Foi uma decisão de grandes conseqüências. E nós, como nos decidimos? Será que preferimos ficar sonhando com um tesouro como aquele encontrado no sepulcro do faraó Tutancâmon? Moisés teve essa opção de viver na riqueza, mas sua decisão foi outra. Ele fez a melhor escolha: optou por servir ao povo de Deus.

5. O fundo do vaso

Um oleiro trabalha peça por peça. Faz cada vaso individualmente. Um diferente do outro. Um vaso não é tijolo fabricado em série, prensado na mesma forma. Somos uma obra de arte do Oleiro divino.
Quanto maior o vaso, mais sua estabilidade dependerá de sua base. Um prato com fundo irregular fica girando na mesa. Parece engraçado, mas a refeição fica complicada. Uma tradução judaica diz em Jeremias 31.22: “Por quanto tempo ainda você ficará girando em círculos, ó filha rebelde?” (Zuns). Girar em círculos define muito bem o ritmo da vida natural, uma vida errante, com seus ciclos monótonos e repetitivos e sua espiral de prazer que nunca tem fim. Paulo apontava para uma direção bem diferente: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1 Co 15.58). No Salmo 17.5 vemos o crente movendo-se não em círculos, mas com firmeza, com rumo e direção: “Os meus passos se afizeram às tuas veredas, os meus pés não resvalaram”. Rumo e direção tornam-se ainda mais importantes em nossa época, tão destituída de valores e com sua cultura cada vez mais ímpia. Como diz a Escritura, “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.14). Com Jesus nossa vida está assentada sobre um fundamento firme. Sem Jesus construímos castelos de areia que a maré carrega.

6. Os enfeites

A passagem de 2 Coríntios 11.3 tem muito significado para os que já são “vasos escolhidos”: “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo”. Simplicidade e pureza, eis o lema de nossas vidas. Eis o que o Oleiro divino espera de nós. As mulheres do Novo Testamento exemplificam essa verdade quando são instadas a se adornarem com recato, sem exageros, buscando antes de tudo o adorno interior: “Não seja o adorno da esposa o que é exterior, como frisado de cabelos, adereços de ouro, aparato de vestuário; seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1Pe 3.3-4; veja 1Tm 2.9). O contrário de simplicidade e singeleza seria aparência vistosa, enfeites em demasia e cuidados exagerados com a aparência exterior. A ética cristã enaltece os valores verdadeiros e a beleza interior, bem oposta à “concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2.16). Por isso devemos cuidar para não sermos contagiados pelas falsas avaliações dos meios de comunicação. “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1Co 1.26-29). Diante da eternidade, muitos defeitos e fragilidades são completamente irrelevantes. Orelhas de abano, nariz grande demais... todas as coisas exteriores tornam-se simplesmente ridículas diante da grandiosidade da eternidade. Os “enfeites” de um vaso são secundários!

7. O selo de qualidade

Sem Jesus construímos castelos de areia que a maré carrega.
Na porcelana nobre, o selo de qualidade e a marca do fabricante ficam discretamente no fundo da peça. Sem chamar a atenção. Bem ao contrário das imensas etiquetas que vemos em certas peças de roupa. Para nós, o que importa é o selo divino, a marca de qualidade que Deus nos concede: “...visto que fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus, que prova o nosso coração” (1Ts 2.4). E “bem-aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam” (Tg 1.12). “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). “Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.16). Isso é aprovação divina! Paulo, o vaso escolhido, o instrumento útil nas mãos de Deus, tornou-se exemplo para todos os cristãos por seu andar, seu agir e seu falar aprovado por Deus. Seus sofrimentos desempenharam um papel importante no processo, justamente como o Senhor Jesus profetizara a ele no início de sua carreira de cristão (At 9.15-16).

Moldados pelo sofrimento

O tratamento dispensado ao vaso durante sua confecção não é delicado nem suave. No início o barro é amassado e socado até ficar homogêneo e sem impurezas. Depois vem o acabamento, a retirada das sobras e saliências que tiram a beleza do todo. A analogia com nossa vida, já que somos vasos que Deus escolheu, torna-se bem evidente: também passamos por um tratamento doloroso até sermos úteis nas mãos do nosso Grande Oleiro. Certamente teremos de enfrentar sofrimentos e dissabores, perseguições e aflições, se quisermos ser aprovados como vasos úteis para nosso dono. Como exemplo, se argumentamos que o homossexualismo é anti-natural e perverso (basta observar a anatomia dos corpos), ou se negamos que o aborto seja um direito humano fundamental (como muitos pretendem que seja), e se também não aceitamos a tolerância religiosa absoluta, que chega a proibir a evangelização para que ninguém seja “coagido” a crer em Cristo, então devemos estar prontos a sofrer. Nessa era pós-moderna, a tendência é aceitar tudo e admitir todo e qualquer comportamento. Mas se os cristãos abrem a boca são atacados, ridicularizados e chamados de inimigos da democracia. “Pregadores do ódio” é um dos títulos que os cristãos verdadeiros recebem ao pregar a verdade bíblica. A criminalização do discipulado verdadeiro já está em curso especialmente em países da Europa. Vemos a democracia sem o temor de Deus desaguando rapidamente em anarquia e anticristianismo.
Os países da Reforma Protestante sentem fortemente o empuxo desse processo negativo. Muitos cristãos sentem-se desconfortáveis com sua fé que colide com a opinião geral. Ficam cansados, sem força e sem poder espiritual e desanimam de lutar contra um sistema podre e degenerado. Na prática, isso significa tentar pular fora da roda do oleiro e fugir do processo de confecção do vaso. A tentação é grande. Ninguém gosta de sofrer. Mas Daniel 11.32 nos estimula, dizendo: “...o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo”. O braço do Senhor não está encolhido para nos ajudar a enfrentar o que quer que nos sobrevenha nem estará encolhido para ajudar Israel na Grande Tribulação e no confronto com o Anticristo que virá e que já se delineia no horizonte.

De lixeiro a recipiente útil

Essa é a mensagem do vaso. Independente de nossa origem, do nosso nível intelectual, de nosso status social, da nossa aparência, e menos ainda do nosso passado pecaminoso, o alvo é o mesmo: “Ora, numa grande casa não há somente utensílios de ouro e de prata; há também de madeira e de barro. Alguns, para honra; outros, porém, para desonra. Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” (2Tm 2.20-21). Esse é o supremo alvo de Deus para nós que O seguimos. Ele deseja que sejamos “úteis ao dono da casa”. Nosso Oleiro Divino cumpre o que promete. Diariamente somos confrontados com tragédias e erros humanos. Não conseguimos entender como alguém pode atirar em inocentes sem motivo algum, como idosos trocam suas esposas por mulheres mais jovens ou porque a criminalidade cresce tanto. Mas não esqueçamos nunca que o homem sem Deus é capaz de qualquer coisa! É por isso que Jesus adverte: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Temos a escolha: amar a Jesus ou não amá-lO. Permanecer em Cristo ou não permanecer. Ficar nas mãos do Oleiro ou rejeitar Seu tratamento conosco. Podemos optar entre ser usados por Deus como vasos úteis ou fugir do compromisso com nosso Senhor. Quando tomamos a decisão errada surgem os escândalos no meio cristão, até entre seus líderes. Estagnação é retrocesso. E o perigo de estagnar no discipulado é muito grande. O tempo passa, os anos se vão, e se não tomarmos cuidado, um dia seremos fósseis vivos, endurecidos como o barro na época da seca. Restaremos como utensílios imprestáveis e inúteis. Precisamos do Oleiro sempre. Precisamos continuamente de Sua ação e do Seu poder dinâmico que gera vida e nos faz úteis em Suas mãos. Precisamos nos manter na roda do Oleiro. A idade não importa. Sempre é tempo de sermos moldados pelo Senhor e transformados mais e mais na Sua imagem, para que resplandeçamos “como luzeiros no mundo” (Fp 2.15), no meio de uma geração pervertida e corrupta. Então seremos vasos úteis, para a glória de Deus!


Reinhold Federolf — Chamada.com.br